Intensamente emocional

As pessoas estão cada vez mais intensas.  Emoções, ações ou opiniões tomam uma proporção assustadora.  Qualquer contrariedade extingue uma amizade ou desencadeia uma aversão.  Nossas relações extrapolam os limites familiares, expandindo-se em relações de trabalho, sociais e no círculo de amizade.  Se há alguma pessoa em algum desses grupos com a qual se concorde em tudo, essa é sua alma gêmea e você é uma pessoa privilegiada. Nenhuma discordância mesmo? Nunca? Nem uma única vez?

Tão intensas estão se tornando que não há mais limites. Pessoas de todas as idades agridem, torturam ou até matam por motivos fúteis nos casos mais graves, mas há aqueles que excluem do seu círculo de amizades todos aqueles que não têm a mesma opinião sobre política, casamento, opção sexual ou religiosa, entre tantas outras.   Essa intensidade perceptiva não respeita a opinião do outro. Não há tolerância, só intensidade.

Há quem termine uma amizade de anos porque a amiga chegou com o cãozinho, seu filho amado, recém-adotado, que se refestelou no sofá novo. Uma não gostou de ver seu sofá sofrer os efeitos dos dentes no tecido, outra se melindrou porque o “filho” foi colocado no colo da “mãe” com o pedido para que ali permanecesse até o final de visita, que foi breve e a última, depois de décadas de amizade.

Fim do relacionamento. Entre amigos, entre casais, entre colegas.  Tal intensidade levará cada vez mais pessoas por uma estrada solitária. Nos casos mais graves, desafetos não são mais ignorados, mas trucidados, física ou moralmente.  As redes sociais estão repletas de pessoas que postam suas opiniões – únicas e verdadeiras – através de palavras ferinas, causando todo tipo de dor e muitas vezes se juntam àquelas cujas consequências redundam em violência física nas manchetes dos jornais.

Amigos precisam torcer pelo mesmo time, votar no mesmo partido e amar sushi, ou não serão mais amigos. Entre a intensidade do pensamento em relação ao ter sempre razão e o respeito à opinião do outro há uma linha que deve ser respeitada. Esse limite ou a ausência dele é que contribuiu para que tantas crianças, adolescentes e adultos não consigam perceber que não precisam pensar igual, que podem externar sua opinião sem aniquilar o oponente. Discordar pode ser salutar, pois as diferenças permitem somar novos pontos de vista,  promover o discernimento.  Respeitar as diferenças não reflete fraqueza. Pensar intensamente sobre a tolerância é mais importante que ser intensamente emocional.

O tráfico e a matemática: uma reflexão

Atualmente, crianças e adolescentes estão “antenados”. Usam as redes sociais com a facilidade que só a prática proporciona especialmente para “jogar conversa fora”, marcar “baladas”, comentar sobre o (a) gatinho (a) ou informar aos amigos sobre a fofoca do momento. Se o assunto for engraçado, o fato for diferente ou estranho, ou se ele apresenta aplicabilidade em curto prazo, a atenção é imediata.

Podem não ter interesse em saber o que se passa em países africanos ou asiáticos, ou sobre o último escândalo político do seu ou de qualquer outro país, porém conhecem a realidade com a qual convivem diariamente.

Um professor de matemática resolveu utilizar o tráfico de drogas para ensinar sua matéria e virou matéria de jornal, desculpem o trocadilho, conforme pode ser conferido através do link que posto abaixo. Ele viu na realidade uma forma de despertar interesse, de forma um tanto inusitada.

Partindo, por exemplo, da primeira questão “Zaroio tem um fuzil AK-47 com carregador de 80 balas. Em cada rajada ele gasta 13 balas. Quantas rajadas poderá disparar? “

Poderia  ele criar um enunciado mais abrangente: Se em cada rajada ele atingisse mortalmente uma pessoa, e levando-se em consideração que fosse condenado por cada homicídio a trinta anos, quantos anos somaria sua pena?  Cada rajada corresponderia a quantos anos na prisão? Se a pessoa falecida fosse responsável pelos cuidados e sustento de quatro filhos menores, ganhando R$ 600,00 por mês, mas sem contribuir para o INSS, eles não receberiam pensão e teriam que morar com os tios. O quarto dos 3 primos, que eles terão que dividir, mede 2 m x 2,50 m. Qual o espaço que cada um terá para dormir?

Utilizar o contexto social, político, econômico… pode ser uma boa maneira de despertar a atenção, mas qualquer ação precisa ser trabalhada visando a reflexão, ou ela será tão eficaz quanto um problema usando laranjas e bananas para ensinar as quatro operações.

http://www1.folha.uol.com.br/saber/878052-prova-de-matematica-simula-contabilidade-do-trafico-de-drogas.shtml