Os Rabos das Lagartixas

As lagartixas correm ensandecidas, cada qual pensando em se desfazer do rabo, procedimento usual em caso de perigo eminente,  porém algumas dezenas delas desenvolveram a síndrome do rabo preso. Algumas – menos do que se deveria esperar – mantém seu funcionamento biológico intacto, enquanto outras ainda não têm certeza absoluta quanto à conduta de seu apêndice.

Reunidas, mas desunidas, discutem sobre o futuro do reino. Cada qual tenta afirmar sua posição, pensando também na sua própria condição. Uma grita: – Impeachment já! Outra retruca: Impeachment é golpe. Mais adiante outra grita num arroubo de insensatez: – Prendam o juiz que tudo se resolve. Uma delas se atreve a lembrar de que antes de se posicionar é preciso averiguar quais as provas que há. Outra geme, lembrando talvez a tortura e diz: – vamos acabar numa ditadura. Nada disso, diz outra, parem com a discussão, vamos lamber essa pizza, que ainda não caiu no chão.

A líder, acusada de roubar milhões, tenta manter a ordem, mas só há desordem. Em seu auxílio vem outra, citada em um caso de evasão de divisas, com direito a fotos em cartazes de “Procura-se” e diz: – se ainda lavassem a jato com a água do Tietê. Aquelas, já lavadas a jato, caíram na gargalhada pensando na possibilidade do sujou geral.  Até a líder parece gostar da ideia, pois desviaria os holofotes para outras questões, que não os milhões.

Golpe duro sofreram as lagartixas com a síndrome, enquanto as demais sofrem por antecipação, com medo da contaminação. Nenhuma delas parece preocupada em achar uma solução. Reforma na política dos rabos é um desafio. Terminar com os benefícios da classe, nem pensar. Se faltar grana para limpar o rio ou para rejuntar as fissura no piso, que se vire quem deles precisar.

As lagartixas do reino da Família La Dina Bra Zil, onde tudo está como sempre foi ou assim acham algumas, estão atentas aos atos de Dona Justa, lagartixa desgarrada da turma em reunião. Ela também anda vigilante. Arroubos de paixão não fazem parte da sua jurisdição, analisa fatos e nunca condenou ninguém por pedalar sem direção.

Seja qual for o resultado da deliberação, o voto das lagartixas com ou sem síndrome, deve ter por base apenas a lei, nada mais, nada menos. Não deveria haver espaços para jogadas políticas do neolítico.  A festa está acabando, a fila andando, a farra terminando… Fica a expectativa de que a democracia se fortaleça e a corrupção se desvaneça.

Originalmente publicado na página Opinião – “Os rabos das lagartixas” – Jornal NH 04/04/16

Direitos iguais, mas nem tanto

Somos todos brasileiros, com direitos iguais conforme consta no Artigo 5º da Constituição, porém toda regra tem exceção e nesse caso há o foro por prerrogativa de função, mais conhecido como foro privilegiado, ou seja, o Supremo Tribunal Federal é responsável por julgamentos de presidentes, ministros (civis e militares), parlamentares, prefeitos, integrantes do Poder Judiciário, do Tribunal de Contas da União (TCU) e de membros do Ministério Público.

Direitos iguais, mas com privilégio para alguns. Iguais, mas diferentes.  E o país exala diferenças e se divide até nas redes sociais. Estranho é ver as ofensas contra quem se atreve a ser “diferente”.  É a turma do “Tô certo”  levando opiniões as últimas consequências.  Todos querem estar certos quando se trata de defender um lado, mesmo que logo ali postem uma figurinha defendo o respeito à diversidade ou contra a corrupção.

Então, o Brasil está dividido entre coxinhas e petralhas, como se um dos grupos tivesse soluções novas para velhos problemas.  Se Lula for julgado pelo Supremo e absolvido, os detratores dirão que o motivo é que alguns ministros foram nomeados pelo réu e por sua sucessora. Agora, se Lula for julgado culpado, os defensores dirão que é um golpe midiático.

O agora ministro Lula pode vir a ter foro privilegiado, mas também há controvérsias. Um ex-deputado renunciou, porém a Corte entendeu que isso não bastava para ele deixar de ser julgado pelo STF. Foi preso, mas teve seu mandato mantido pela Câmara dos Deputados.

Agora cabe ao Supremo analisar se a nomeação de Lula pela presidenta Dilma encontra respaldo na lei. Renunciar para fugir ao foro privilegiado é inválido e há jurisprudência sobre essa questão. Obter foro privilegiado para escapar da justiça federal é inválido? Haja jurisprudência para julgar os privilégios.

Publicado originalmente em 21/03/2016 – Jornal NH In: http://www.jornalnh.com.br/_conteudo/2016/03/noticias/regiao/297625-direitos-iguais-mas-nem-tanto.html

Dungeons, Dragons e a Família La Dina Bra Zil

Escrever requer não só conhecimento da língua, mas também inspiração. Essa última é alimentada por uma velha conhecida do povo brasileiro e se chama esperança. Quando a fonte de energia nos é tirada, fenecemos. A esperança está presente em inúmeras manifestações literárias e artísticas, que traduzem um mundo de informações utilizando a ficção, a sátira, a crítica, o humor ou o drama.

Uma crônica precisa de esperança, pois no traço há uma necessidade de expressar uma ideia para desafiar aquele que lê a refletir, assim como de informação, pois nada se escreve sem conhecimento e prova disso é a dificuldade que grande parte dos jovens encontram ao escrever uma simples redação.

Humanidade e honestidade são palavras inspiradoras, mas seus antônimos nos sugam a esperança. A notícia, on-line ou em papel jornal, apresenta uma realidade surpreendente. Não bastassem os casos de violência generalizada por esse país afora, ainda somos obrigados a conviver com a corrupção da velha família La Dina Bra Zil. Para que os mais jovens entendam o uso da palavra para denominar uma família ficcional, os Ladinos são personagens típicos de alguns jogos como Dungeons & Dragons e World of Warcraft entre outros. O mundo real também está repleto de ladinos, que assim como nos jogos, querem se dar bem na vida, ou seja, obter muito dinheiro.

Operadores do mensalão, lava-jato, zelotes e tantas outras maracutaias são os legítimos representantes da família La Dina e derrotariam facilmente os personagens ladinos dos jogos virtuais, nos quais sempre se pode reiniciar a partida. Nem todos os dragões irão para a masmorra, mas todos parecem ser diplomados na arte da guerra silenciosa que ceifa vidas, pois onde houver corrupção haverá precarização da saúde, da segurança, da educação…   Na vida real quem perde é a sociedade.

Meus, Teus, Nossos professores abusadores

A página criada no Facebook com o nome “Meu Professor abusador” conta com mais de 10 mil curtidas, em torno de 750 depoimentos e pode aparentar ser apenas mais uma entra tantas destinada a gerar polêmica. O ideal é não fazer juízo de valores, qualificando o fato como bom ou ruim. A vida em sociedade é repleta de antagonismos que permitem o debate, que acaba gerando novos conhecimentos e em decorrência, algumas mudanças.

Lembro quando uma garota – Isadora Faber – criou a página “Diário de Classe” relatando os problemas de sua escola. Muitos foram a favor, outros contra, mas contribuiu de forma positiva, pois chamou a atenção para vários problemas existentes em escolas públicas.

Outro problema que era ignorado quase por completo pela mídia era o fato de que ocorrem suicídios na adolescência. Não falar sobre o problema não significa que ele não exista. Se expor em demasia pode encorajar imitações, por outro lado, ao falar abertamente sobre um fato que antes era tabu, pode servir de alerta aos pais, educadores e adolescentes ao perceberem que não estão sozinhos, podem buscar auxílio.

Agora é a vez dos professores abusadores, se bem que esse adjetivo pode acompanhar qualquer substantivo que designe uma das tantas profissões existentes, pois abusadores existem entre todas elas, sem exceção. Li algumas dezenas de depoimentos que estão na página e entrei em contato com as garotas para averiguar se teria algum problema usá-los e garantiram que não, por serem públicos. Elas se resguardam e também asseguram a privacidade das pessoas que deixam seus depoimentos. Há nomes de escolas e cidades, mas não de professores, mas há sim muitas pistas para que as instituições os identifiquem.

Serão todos eles abusadores? Exatamente como se pode caracterizar se houve um abuso?

Basicamente, os abusos ou atos inconvenientes teriam que ter regularidade e se prolongarem por algum tempo, acarretando desconforto ou dor emocional para a pessoa ou expondo-a a situações humilhantes ou constrangedoras. Muitas vezes torna-se difícil contestar o abusador, por tratar-se de pessoa em posição de poder. Uma situação isolada não é necessariamente um abuso.

Mas todo tipo de abuso, seja ele infantil, sexual ou moral – sem exceção – causa sofrimento.

Nas escolas, nem sempre a vítima pode contar com o apoio de colegas, pois é comum se calarem diante dos fatos ou rirem das piadinhas maldosas ou brincadeiras de mau gosto. O abusador sente prazer em humilhar, ridicularizar, fazer piadas ou colocações de conotação machista.

Brincadeiras e piadas até podem fazer parte do contexto escolar, mas uma pessoa adulta deve ter perceber quando as mesmas geraram constrangimento.

A página “meu professor abusador” não terá o poder de fazer com que todos os professores venham a ser vistos com desconfiança. Assim como nem todos os depoimentos configuram abuso. Sua maior contribuição será promover o debate, a favor ou contra sua criação, e visibilidade para um fato de que há professores que: “Assediam alunas, fazem piadas machistas ou preconceituosas, aproveitam para passar a mão nas alunas.”

Há caminhos possíveis, desde o simples “não” até denunciar, tanto para as direções quanto nos órgãos competentes, pois não se deveria jamais permitir que crianças, adolescentes ou adultos sofressem esse tipo de constrangimento. Um exemplo que poderia ser adotado é o da USP na qual a Associação de Pós-Graduação lançou uma plataforma que permite aos alunos denunciarem os casos de assédio moral ou sexual.

Alguns depoimentos selecionados da página Meu professor abusador:

“Um dia foi na coxa, outro na cintura até que pegou na minha bunda. Fiquei em choque, pensando será que ele realmente fez isso?! O pior era contar para outras pessoas e ouvir coisas do tipo: – tá reclamando do quê, homem é assim mesmo, dá logo para ele.”

“Fui tirar uma dúvida com ele, como não era horário de aula, ele cobrou pela ajuda. O preço pela aula era mostrar os peitos para ele. Fiquei tão assustada que saí correndo.”

“[…] turmas de quarta e quinta série. Chamava as meninas na mesa dele e passava a mão nas pernas delas, pedia pra sentarem em seu colo, aproveitando da pouca idade e da inocência delas. Quando a escola descobriu, abafou o caso.”

“Eu tinha 12 Anos, entrando na fase de conhecimento sobre sexualidade, eu tinha uma professora de Geografia que tinha seus 40 anos Casada, Bonitona,[…] ela veio falar comigo de novo e falou que eu tinha que ir na casa dela se não ela chamaria minha mãe, eu fui, chegando lá ela começou a mexer comigo e colocar minha mão em suas partes intimas. Isso ocorreu por mais 2 anos, até ela virar Diretora da Escola e parar com isso.”

“Olhava descaradamente para as partes intimas das alunas..Dava nota pelo tamanho dos seios..e dizia isso na frente de todos na sala de aula..Um dia ele me constrangeu muito, durante uma de suas “avaliações”, dizendo quem meu cabelo era ruim..Era assim q ele avaliava seus alunos..”

Fonte:

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/09/150922_suicidio_jovens_fd

http://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,pagina-meu-professor-abusador-recebe-600-relatos-de-assedio,10000016107

http://diariogaucho.clicrbs.com.br/rs/dia-a-dia/noticia/2016/02/pagina-no-facebook-reune-denuncias-de-assedio-moral-e-sexual-em-escolas-cursinhos-e-faculdades-4976175.html

https://www.facebook.com/Meu-Professor-Abusador-1123550511018710/?fref=ts

http://www.normaslegais.com.br/trab/1trabalhista020207.htm

 

Epidemia Corporal, Espiritual e Financeira

Não sei se a situação se restringe aos lugares por onde passo ou se é um fato generalizado por esse país afora, mas a percepção que tenho é de que estamos diante de uma epidemia que adoece o corpo, a alma e as finanças de grande parte da população.

Farmácias, igrejas e financeiras surgem com numa velocidade impressionante, aparentemente vendendo a cura para todos os males existentes. Há tantas opções que o negócio deve ter uma rentabilidade excelente. Farmácias há tantas que em um quarteirão pode-se encontrar várias, algumas lado a lado.

Igreja como não poderia deixar de ser, buscam inspiração na Bíblia e ganham destaque em blogs por inusitadas nomenclaturas, mas é praticamente impossível encontrar uma lista oficial de todas registradas no país.

Em um determinado blog é possível encontrar uma lista de igrejas, sem fornecer a fonte original, mas vale pelo inusitado. Se existem de fato, não foi possível comprovar, mas entre elas estão a Associação Evangélica Fiel Até Debaixo D’água, Congregação Anti-Blasfêmias, Igreja Assembleia De Deus Do Papagaio Santo Que Ora A Bíblia, Igreja Automotiva Do Fogo Sagrado, Igreja Bailarinas Da Valsa Divina entre tantas outras que podem ser encontradas na lista, conforme consta no blog usuáriocompulsivo (link abaixo).

Financeiras e seus correlatos também parecem surgir da noite para o dia. Outro excelente negócio pelo visto, já que muitas lojas aderiram ao cartão de crédito com marca própria e os oferecem a seus clientes como uma vantagem, com prazo de parcelamento maior ou então descontos no pagamento. Porém, como todo cartão de crédito, também cobra tarifas e juros quando ocorre atraso no pagamento.

Há também aquelas financeiras que utilizam um marketing agressivo, abordando especialmente idosos, oferecendo-lhes a solução para seus problemas através do consignado. São tantas as vantagens que algumas compram até dívidas antigas, oferecendo juros menores.

Caso não se fique satisfeito com o atendimento de qualquer uma delas, logo ali ao lado há alternativa. São tantas que me pergunto se ainda há alguém que não tenha conseguido curar sua aflição. Empréstimos para quitar as dívidas, milagre para quitar os débitos oriundos de outros financiamentos ou dores, as quais os medicamentos já não conseguem aliviar. Tanto faz, a escolha é sua.

Entretanto, apesar de todas as ofertas que visam sanar essas moléstias, sejam elas corporais, espirituais ou financeiras ainda me surpreendo com ações vis que ganham manchetes de destaque, para as quais não há vacina nem profilaxia medicamentosa que consiga debelar a epidemia de maldade que fere, mutila e mata seres humanos de todas as idades.

http://usuariocompulsivo.blogspot.com.br/2010/02/todas-as-igrejas-do-brasil.html

O sonho de Aylan

Era um garoto que fugia da violência. Sua jornada era destinada a viver em paz. Não conseguiu atingir seu objetivo, pois o destino ceifou sua frágil vida. Seu sonho e de sua família foi apagado pela água salgada do oceano.

Símbolo da tragédia dos refugiados sírios a charge publicada pela revista satírica “Charlie Hebdo” previu um futuro sombrio para tantos Aylans que sobrevivem a tantas tragédias todos os dias. Uma pretensa sátira que não é engraçada nem crítica, mas preconceituosa.

Jovens de todas as nacionalidades e classes sociais podem apresentar comportamentos violentos, portanto, apontar o dedo para os imigrantes e em especial para uma criança que perdeu a vida buscando a paz traduz uma enorme insensibilidade. Bem verdade que rendeu um bom espaço na mídia, se bem que por razões erradas.

Aylan sobrevive nas mentes de milhões de pessoas, deixando uma mensagem na qual nos diz que é possível lutar por uma vida melhor sem recorrer à violência. A charge deveria expressar seu sonho: –

“Migrantes: no que teria se transformado o pequeno Aylan se tivesse crescido?”.

Talvez, em um “apanhador no campo de centeio” e como o personagem do livro poderia se transformar no guardião de crianças que estão em um vasto campo de guerra, na beira de um precipício. Holden, personagem do livro queria ser um “apanhador no campo de centeio” pois para ele significa salvar as crianças contra a perda de sua inocência.

Os sonhos de Aylan apagados pelo oceano ainda podem ser sonhados por milhares de crianças. O sabor salgado faz parte tanto do oceano quanto das lágrimas derramadas pelo menino símbolo. Que o sabor jamais seja esquecido ficando gravado de forma indelével na memória de todos aqueles que buscam a paz.

Originalmente publicada no Jornal NH – 20/01/2105 p. 10 sob o título ” Os sonhos dos Aylons”

http://www.jornalnh.com.br/_conteudo/2016/01/noticias/regiao/264081-os-sonhos-de-aylons.html

Futuro com Nem-nem e sem professor

Estava escrevendo sobre as notícias publicadas na mídia que tratam da educação, quando me deparei com a turma dos Nem-nem.  No Brasil em 2014 eram 13,9% dos jovens entre 15 e 29 anos, que não estudavam nem trabalhavam. Os precursores provavelmente são os “tô nem-nem aí”, que passam pelos bancos escolares repetindo cada série duas ou mais vezes simplesmente por falta de interesse, não por dificuldade de aprendizado.

São 20 milhões de latino-americanos entre 15 e 24 anos atualmente não estudam nem trabalham, conforme o Banco Mundial — os chamados “nem-nem” somam quase 60% dos jovens e provêm de famílias situadas nos 40% mais pobres da distribuição de renda. Um expressivo número de jovens despreparados para gerenciar sua própria sobrevivência.

Por outro lado, temos um expressivo número de professores envelhecendo. Em 2013,segundo o DIEESE, na faixa etária acima de 46 anos havia 29,9% professores nas redes estaduais e municipais sendo que destes 16,0% tinham mais de 50 anos de idade sinalizando uma tendência de aumentar o número de aposentadorias nos próximos anos.

Estamos em janeiro de 2016 e os meios de comunicação mostram que na Rede estadual do RS há um déficit de 1,5 mil professores, sendo que em 2015 ocorreu um aumento de 37% nas aposentadorias em relação a 2014.

Além das aposentadorias há casos de exoneração e óbito que influem no resultado, assim como o fato de que o RS tem o menor vencimento básico do país. A cada dia de 2015, houve uma média de 17 afastamentos (aposentadoria, exoneração ou óbito), somando mais de 6 mil professores.

Em contrapartida, a Secretaria de Educação prevê levar para a sala de aula professores que hoje estão em cargos administrativos e o Tribunal de Contas do Estado (TCE) afirma que a rede pública estadual tem 8,1 mil professores (10,9% do total) em desvio de função – atuando em atividades burocráticas ou com ocupação indefinida, sendo que 3,9 mil atuam como auxiliares em bibliotecas e 2,7 mil nem sequer têm as incumbências registradas.Quais seriam os cargos administrativos ao qual se refere a Secretaria de Educação?

Há excelentes professores atuando como diretores e vice-diretores de escolas, inclusive gerenciando a parte financeira. Observando que só na conta da merenda escolar a cada ano aumenta a exigência de controle e mesmo assim ainda ocorrem fraudes, porém nesse caso, em geral, não se trata de incompetência, mas de desonestidade. Gerir uma escola não é tarefa fácil, pois exige conhecimentos administrativo, financeiro e pedagógico, então é óbvio que a equipe diretiva precisa de pessoas cujos conhecimentos permitam gerenciar de modo adequado toda a burocracia envolvida no processo.

Conforme consta na Lei n 10.576/95, pode candidatar-se aquele que for membro do Magistério Público Estadual e o servidor em exercício em estabelecimento de ensino e que tenha curso superior na área de Educação; estabilidade (nomeado/concursado) e não estar no período de estágio probatório, entre outros quesitos. Então há sim um grande número de professores em cargos administrativos, além dos cargos de direção, há aqueles que atuam como orientadores e supervisores. E se isso ocorre, pode-se presumir que é pela inexistência de professores nomeados para essas áreas.

Entre as 2.569 escolas estaduais do RS, em torno de 500 delas não havia candidatos a diretor. Nesses casos cabe à Seduc indicar quem exercerá o cargo, em geral, o professor mais titulado na área de educação daquela escola. E a questão é: – Qual o motivo para que não haja candidatos?

Mil e trezentos docentes que estão atuando na rede municipal em regime de permuta. o mínimo o que se esperaria é que a mesma ocorresse entre profissionais que atuam na mesma função, porém aqueles que atuam na Assembleia Legislativa, em órgãos federais, em secretarias municipais e estaduais que somam em torno de 400 professores poderiam ser chamados de volta à seus cargos de origem, se a legislação assim prevê, entretanto, jamais retirar 173 professores da Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apaes) e pelo contrário, deveriam aumentar o número, pois as APAES vem fazendo um excelente trabalho ao logo dos anos, preparando pessoas para conseguirem o máximo de autonomia no cotidiano. A sua eficiência é inquestionável e, portanto, merecem mais e jamais menos.

Por outro lado, a matéria assinada pela jornalista Cleidi Pereira veiculada na ZH e no Diário Gaúcho (09//01/2016) apresenta alguns dados que são conflitantes com aqueles apresentados pelo TCE-RS.

Na matéria em questão, haveria 52.870 professores em sala de aula em dezembro de 2014 com previsão de 51.363 (-2,85%) em janeiro de 2016. A referência nesse caso, deve se referir à docentes nomeados, uma vez que na pesquisa feita pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE) a partir de informações da base de dados da Secretaria Estadual da Educação (Sistema ISE), de outubro e novembro de 2015 na rede pública estadual haveria aproximadamente 8 mil professores (10,9% do total) em desvio de função – atuando em atividades burocráticas ou com ocupação indefinida. Quais seriam essas atividades exatamente?

Os auditores constataram que 3 mil e 900 professores atuam como auxiliares em bibliotecas e 2 mil e 700 nem sequer têm as incumbências registradas. São quase quatro mil professores para 2.569 escolas sendo que muitas nem possuem biblioteca. Quantas dessas escolas possuem bibliotecários? Quantas delas possuem mais de um auxiliar de biblioteca? Quantas, efetivamente, não possuem biblioteca e/ou auxiliares? Aqui cabe uma ressalva, novamente, pois há casos de professores que acabam saindo de sala de aula por diferentes razões e são colocados em bibliotecas ou em outras funções e se tal fato ocorre deve ter o aval das coordenadorias de educação. O TCE-RS poderia averiguar os motivos que levaram a esse procedimento.

Outro fator que há de ser considerado é a estabilidade, pois se não há um boa e continua avaliação ao longo do estágio probatório, pessoas emocionalmente instáveis ou não comprometidas com o processo educacional acabarão se tornando problema permanente e a solução é a mesma adotada na maioria dos casos com alunos problemáticos, ou seja, troca-los de escola, pois infelizmente, não há uma equipe multidisciplinar a disposição de docentes e discentes capaz de amenizar esses problemas que parecem aumentar a cada ano.

O TCE RS também aponta a questão da Defasagem na gratificação de difícil acesso ou provimento, através da qual professores e funcionários têm direito a adicionais de 20% a 100% sobre o vencimento básico. Rever essas gratificações não geraria necessariamente economia. Sem a gratificação, certamente parte dos professores passariam a receber o completivo e outros, em escolas que passassem a receber a gratificação, deixariam de recebê-lo. O governo do estado paga um Completivo desde 2012 aos professores que não recebem o Piso Nacional do Magistério.

Outros pontos levantados pelo TCE se referem a professores e servidores com carga horária não preenchida, Docentes em desvio de função sendo que 2.671 com funções não declaradas, inclusive com contrato temporário. Também há, conforme o TCE, descontrole sobre docentes com horário reduzido e situações passíveis de redução de turmas, pois conforme o órgão há 811 turmas passíveis de redistribuição, dentro das próprias escolas, com economia de R$ 777,7 mil mensais. O tribunal também detectou 813 classes superlotadas.

Assim, qualificar a educação parece passar sempre pelo mesmo velho problema de pagar pouco e economizar muito, sem atacar a origem real do problema. É como dar um remédio para a febre para um paciente com infecção generalizada.

http://www.dieese.org.br/notatecnica/2014/notaTec141DocentesPnadvf.pdf

http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2015/12/mais-de-500-escolas-estaduais-estao-sem-candidatos-para-diretor-no-rs.html

Portaria 277/2015 sobre a Eleição de Diretores, de 9 de novembro de 2015.In: http://www.educacao.rs.gov.br/dados/eleicao_dir_portaria_277_2015_20151110.pdf

http://diariogaucho.clicrbs.com.br/rs/noticia/2016/01/rede-estadual-tem-deficit-de-1-5-mil-professores-4947842.html

http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2016/01/governo-do-rs-reajusta-em-1136-completivo-pago-professores.html

http://oglobo.globo.com/economia/banco-mundial-america-latina-tem-20-milhoes-de-jovens-nem-nem-18501966

http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2015/12/geral/470596-brasil-ainda-tem-um-em-cada-cinco-jovens-sem-trabalhar-nem-estudar-diz-ibge.html