Percepção de risco: a lição que os gaúchos deveriam aprender com o povo do Japão.

Ângela I. Maieski*

A tragédia que se abate sobre o Japão invade a tela da televisão. Minha filha exprime uma interrogação sobre o tempo necessário para reconstruir tudo que foi destruído. Reflito por um instante e prevejo que o povo que reconstruiu Hiroshima e Nagasaki, que se reergueu após Kobe, guardará as lamentações para seus mortos e transformará suas perdas em força, não apenas para restaurar, mas especialmente para antecipar os efeitos nefastos decorrentes de eventos similares no futuro.

Nós somos o oposto. Falta-nos percepção de risco, como bem lembrou a Especialista em desastres naturais Tânia Susen, em entrevista concedida ao jornal ZH. E não só pra prevenir problemas decorrentes de eventos naturais.

Somos um país no qual, de acordo com o IBGE, a economia cresceu 7,5%, em 2010 – maior alta em 25 anos – e apresentou o terceiro melhor desempenho mundial. Paradoxalmente, nós gaúchos estamos novamente vivenciando uma estagnação de investimentos decorrente da carência de receitas. E mais uma vez os professores serão condenados pelos erros de sucessivas administrações. Agora, o problema são os Precatórios e as RPVs – Requisições de Pequeno Valor –  que somam R$ 800 milhões.

Nenhum funcionário público do magistério recebeu aumentos de 60% ou 140% por estar com seu salário reduzido a níveis desprezíveis, mas a contabilidade final aponta que a balança está em desequilíbrio, já que a Sra. Despesa está obesa e a Sra. Receita magérrima. Nessas condições, é praticamente impossível professores pleitearem aumento equivalente a defasagem salarial agregada após vários anos de aumentos irrisórios, sem criarem um mal-estar junto à sociedade gaúcha, mas aparentemente criar cargos de comissão nessas condições não irá aumentar a despesa. Sabe-se lá que milagre contábil é esse.

Por outro lado, continuamos colocando em prática nossa falta de percepção de risco. De acordo com o Censo Escolar de 2009, as três redes de ensino do RS somavam um total de 78.312 professores em atividade no Ensino Fundamental. Desse total, 29.097 estão na faixa etária de 41 a 50 anos e 13.285 já têm mais de 50 anos. O resultado da soma são exatos 42.382 professores com 41 anos de idade ou mais. Para que, no futuro, nenhum político venha a público declarar desconhecimento sobre o montante de RPVs ou, nesse caso, de aposentadorias, traduzo a informação. Uma rápida análise leva a crer que em menos de 10 anos teremos milhares de professores aptos a usufruírem suas aposentadorias por tempo de serviço, ao completar 50 anos de idade, mesmo que isso signifique que muitos ultrapassarão os 25 ou 30 anos de contribuição.

O Brasil manteve sua posição e ficou em 88º lugar de 127 no ranking de educação feito pela UNESCO, será esse um reflexo direto da desvalorização do magistério? Enquanto a nota mínima exigida de um aluno no vestibular de medicina beira os 8 pontos, em uma escala de 0 a 10, ocorre o inverso para a maioria dos candidatos à cursos de licenciatura, que precisam atingir menos de 5 pontos, porque sobram vagas nas graduações que formam professores.

Assim, em breve teremos uma tsunami na educação, ocasionada pela onda de baixos salários, aposentadorias e desinteresse por cursos de licenciaturas. Está na hora de aprendermos com o Japão e deixarmos de lado a falta de percepção de risco, pois ele é real e nos ameaça em curto prazo.

Ângela I. Maieski – Graduada em Ciências Sociais e professora na rede pública estadual.

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