Violência contra professores: uma reflexão.

Sou privilegiada, leciono para alunos maravilhosos, porém numa rápida análise, posso dizer que já fui vítima de violência verbal, se bem que numa proporção baixíssima, de 1 para 1000. Isso porém, não é razão para omissão diante do aumento constante de violência a que são submetidos meus colegas de profissão, assim como fazer uma reflexão sobre o assunto sempre é interessante, pois aponta novas nuances para certas situações.

Nós professores, temos que nos policiar para suprimir palavras como “vileiro” ou “barraqueiro” do nosso vocabulário, termos sem conotação racista, nem discriminatória, e que traduzem com fidelidade a ação de algumas crianças e adolescentes, pois eles utilizam amplamente os termos e entendem perfeitamente seu significado, ao contrário de truculento, que a maioria vai considerar palavrão, já que certas atitudes extrapolam o conceito de mal-educado. Atitudes beligerantes, não só não são segregadas, como ainda são idolatradas por alguns, que as adotam como exemplo de poder.

Há frequentes queixas sobre a falta de limites e não se delineia qualquer solução a curto prazo. Essa geração aprendeu muito bem a conviver com seus direitos, mas os deveres ficaram relegados a algum recôndito do passado. Agressões a professores estão se tornando assustadoramente repetitivas e não podem ser usadas como desculpa para que o inverso também ocorra, porém o alto grau de estresse a que estão submetidos alguns professores, seja pela realidade social da comunidade onde lecionam, seja por problemas particulares, agravados pela perda de status social e econômico conferido ao educador e sem contar com efetivo auxílio psicológico para ambos os atores, pode acabar em situações de revide, que não contribuirão em nada para qualificar a educação e estancar a onda de violência, que ronda principalmente as regiões metropolitanas.

Adotamos os princípios de Direitos da Criança e do Adolescente, similares aos que existem em países europeus e fomos adiante, aqui é de 18 anos a idade oficial da responsabilidade criminal. Os crimes cometidos por crianças a partir de 12 anos estão sujeitos a procedimentos legais específicos para jovens. Na Inglaterra e no país de Gales, em 2006, quase 3 mil crimes foram cometidos por crianças com menos de 10 anos e nesses casos, nenhum processo em justiça pode ser instaurado. Essa geração de adolescentes é responsável por ataques racistas, muitas vezes estimulados pelos próprios pais. Menores de 16 anos são responsáveis por mais da metade dos ataques racistas em Londres. Iniciam com pequenos ataques, urinando ou pichando residências, logo os ataques se tornam mais sérios, envolvendo ataques físicos e verbais. Uma das medidas pensadas foi de obrigar os pais de crianças envolvidas em atos racistas a freqüentar cursos sobre cidadania por até três meses e as crianças a ter que obedecer ao toque de recolher, ficando proibidas de sair de casa após 9 horas da noite.

No Brasil, essa atitude iria contrariar o direito de ir e vir das crianças, e assim muitas se valem desse mesmo direito para ficar nas esquinas de movimentadas avenidas, fumando crack e se prostituindo. Que direito é esse, que não consegue tirar as crianças da rua? Que direito é esse que permite a morte prematura de milhares de crianças e adolescentes, vítimas das drogas, da violência, das doenças sexualmente transmissíveis?

Em São Paulo, 1% do total de homicídios dolosos são cometidos por menores de 18 anos e 90% do total de crimes cometidos por crianças e adolescentes, referem-se a pequenos crimes contra o patrimônio. A tendência é aumentar a criminalidade infanto-juvenil, mas seus direitos continuarão a ser respeitados, mesmo que não respeitem os direitos dos outros.

No Japão, a responsabilidade penal foi reduzida de 16 para 14 anos devido ao aumento de crimes cometidos por crianças e adolescentes. No primeiro semestre de 2000, mil menores foram presos por estupros, assassinatos e atos de violência.

Na Europa, a idade de responsabilidade penal vai dos 8 anos aos 15 anos de idades, essa última adotada por países como Suécia, Finlândia, Noruega e Dinamarca, que tem tradição na defesa de Direitos Humanos.

Podemos estar adiantados a essas legislações européias e a japonesa, mas não estamos conseguindo estancar a avalanche de violência juvenil.

Pais omissos, legislação branda, escolas sem serviço de apoio social e psicológico, hospitais e clínicas sem atendimento especializado para crianças e adolescentes usuários de drogas… Uma geração, em grande parte, perdida…

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