Caminhoneiros:   da década de 70 ao século XXI

Na década de 70 trabalhei em uma transportadora.  Os motoristas eram contratados por frete e suas reclamações devem ser parecidas com as atuais: baixo valor do frete, preço elevado do combustível, prestações dos caminhões a pagar, assaltos, estradas em péssimo estado, acidentes – por vezes em decorrência do sono, pois demorar significava um frete a menos – enfim, muitas queixas.

Quando os mesmos iniciaram uma greve, considerei justa, até por conhecer os problemas da classe, porém ao adicionaram o tema “intervenção militar” surgiu um sinal de alerta, somando-se a isso, surgiram caminhões de empresas  e empresários apoiando as reivindicações.  Ops, “pera aí”, como assim?  Pedir intervenção e abdicar do direito de greve? Como assim, empresários defendendo os trabalhadores?

Uma planilha de custos contêm todas as despesas e serve de base para calcular o valor do produto ou do serviço.  Esse por sua vez, vai ser pago pelo consumidor final.  O grande empresário nunca perde, mas pode ganhar mais.  Paga impostos demais? O povo também. Gasta demais com leis trabalhistas? O povo agradece.

Por outro lado, em 2015/16 surgiram às primeiras redes de apoio utilizando as mídias sociais, pró-Bolsonaro.  Não deve ser, portanto, coincidência.  Os caminhoneiros estavam descontentes e com razão, mas a direção que a greve tomou foi muito bem orquestrada através do instragam e do whatsapp.

Então chegamos ao período eleitoral, e mais uma vez as redes sociais foram amplamente utilizadas, por todos os partidos, se focando menos em apresentar propostas, mas principalmente em criar discórdia através das chamadas “Fake News”.  As pessoas acreditaram muito mais no falso, pois era maioria e replicaram até a exaustão.  Talvez a melhor campanha publicitária brasileira.  O bom é que pelo menos metade da população vai ter razão. Vão poder dizer:  Errei, que bom, ou errei, e agora?

 

Candidato X versus Y

X e Y representam incógnitas na matemática, na biologia é um sistema de determinação de sexo e na política, ou melhor, nesse texto representa uma hipótese.

Dois candidatos, aqui nomeados X e Y disputam votos e rejeições. Muitos optam por um, empurrados pela aversão ao outro. X na biologia se junta ao X ou ao Y, salvo algumas exceções, mas no alfabeto se une a outras consoantes e vogais. Há muitas opções que não X e Y, mas ao não reconhecer os perigos inerentes dessa polarização o eleitor não consegue perceber, seja por falta de informação ou pela aversão em si ao X ou Y.

Uma rejeição elevada significa que há uma parcela significativa da população insatisfeita, tanto com o que já vivenciou quanto com aquilo que não espera experimentar. Entra enfim a matemática, com sua incógnita, cujo resultado será correto ou não.

Assim, os apoiadores de X e Y uma vez a incógnita da eleição resolvida, podem partir para um confronto ou não. Os indecisos, que não concordam com X ou Y, que têm dúvidas a respeito de ideias ou condutas, que conseguem perceber que não há somente duas consoantes no alfabeto nem seres humanos que sejam somente X ou Y podem fazer a diferença. Ao concordar 100% com X ou com Y sua escolha está feita, mas se paira alguma dúvida pense no resto do alfabeto. Reveja as opções e escolha aquela que pareça mais apropriada. Não vote levado pela simples aversão.  Democracia permite escolhas e podem ser baseadas no melhor currículo, na menor rejeição, na experiência ou na ideologia. Do contrário temos X ou Y ambos com aproximadamente 40% de rejeição, trocando em miúdos, essa porcentagem é maior que a intenção de voto de qualquer um dos dois. Vale a reflexão.

Um país endividado

Um país endividado, com altos índices de desemprego, vivendo uma crise caótica, como se todas não fossem. O padrão de vida da classe média e baixa se deteriorando.  Restabelecer a ordem se faz necessário,  mesmo que com o uso  da força bruta. Greves e manifestações só atrapalham e os militares deveriam intervir para manter a ordem.  O ”diferente” não deve ter visibilidade. A moral precisa ser restaurada.  Os partidos de esquerda não deram resposta às demandas do povo e nem são coesos.  Essa é uma descrição real de um país que acreditou no discurso e viveu uma das piores ditaduras de todos os tempos, matando milhões de pessoas, na Segunda Guerra Mundial.

Aqui, o partido que governou o país por mais de dez anos navegava num céu de brigadeiro, sem perceber a tempestade que se avizinhava.  Todo poder é transitório, jamais eterno, nem mesmo num regime ditatorial.

Esse mesmo partido que contribuiu para que o país obtivesse avanços significativos nos indicadores sociais se envolveu em inúmeros escândalos, mas não fez um “ mea culpa” com a maioria dos integrantes afirmando  a inocência dos correligionários e a imprecisão da justiça, na qual o povo se apoia para obter justamente ela, a justiça.  Entre tantos problemas, criaram mais um, pois afirmam que a justiça, não só tarda, mas falha. Desacreditar a justiça é criar o caos. O combate à corrupção, ao suborno e às fraudes deve continuar, para que deixe de ser pandemia passando a meros casos esporádicos.

Não há de se isentar os demais partidos de sua parte da responsabilidade. Nem apoiar as inúmeras vantagens adicionais recebidas pelo legislativo e judiciário.  A reflexão deve ser sobre leis e direitos ou força e ordem.

Publicado originalmente em:https://www.jornalnh.com.br/_conteudo/2018/09/noticias/opiniao/2314552-um-pais-endividado.html

Se nada der certo vou trabalhar

Sinto muito informar aos estudantes que passar no vestibular, concluir uma graduação, mestrado ou doutorado pode não dar certo.  Para dar certo é necessário uma boa dose de dedicação e muito trabalho. Estudar é necessário e muito bom, mas também é necessário aprender. Dar certo significa ter competência no seu trabalho, seja de pedreiro ou engenheiro e crescer na profissão. Só quem aprende e se adapta as circunstâncias consegue dar certo. Assim, se nada der certo vou ser camelô e quem sabe virar dono de um canal de TV. Se nada der certo, vou ser faxineira e me transformar em dona de uma rede de salões de beleza, se nada der  certo vou deixar de ser professor e abrir uma casa de festas, se nada der certo vou ser mascate e vira dono de rede de lojas de varejo. Esses são exemplos da vida real. Uma boa ideia, um pequeno investimento e muito, mas muito trabalho é o que vai fazer dar certo. E dar certo significa ter trabalho e contas em dia, ter consciência ambiental e social, ter amor por sua profissão. Dar certo é ter empatia e despir-se de preconceitos.  Dar certo nem sempre tem relação com os QIs (Quociente de inteligência ou Quem indica),  mas tem relação com o QE, pois sem Quociente emocional é difícil dar certo.

Sobreviver ou se aposentar, eis a questão!

O Brasil é um país deveras interessante. A incompetência para fiscalizar as más ações administrativas parece ter encontrado, enfim, novos caminhos entre tantos descaminhos. Leite, carne e seus derivados ganham aditivos comprometendo a credibilidade, não só das indústrias, mas também do governo, pois a ele pertence a responsabilidade de fiscalizar. Cada novo escândalo desvia os holofotes do anterior. Boa estratégia de marketing, se não afetasse ainda mais nossa frágil economia.  Menos mal que ganharam nome e sobrenome, e estão sendo investigados, se bem que nem deveriam ter ocorrido.

O povo, preocupado com a reforma da previdência, começa a perceber que talvez não vá sobrar tempo de vida para desfrutá-la, afinal, beber leite ou comer carne, ingerir agrotóxicos junto com a salada ou usar molho temperado com quantidade tolerável de pelo de roedores pode contribuir para diminuir a expectativa de vida. Talvez aqueles felizes contribuintes que não estão entre os 63% que recebem um salário mínimo de aposentadoria não se importem. Talvez aqueles que contribuem sobre dez salários mínimos, mas receberão o equivalente a 60% encontrem alternativas como criar galinhas e plantar hortaliças no quintal.  Conforto na aposentadoria somente para aqueles privilegiados que não dependem da previdência, com direitos diferenciados num país no qual constitucionalmente, todos são iguais perante a lei.

Intensamente emocional

As pessoas estão cada vez mais intensas.  Emoções, ações ou opiniões tomam uma proporção assustadora.  Qualquer contrariedade extingue uma amizade ou desencadeia uma aversão.  Nossas relações extrapolam os limites familiares, expandindo-se em relações de trabalho, sociais e no círculo de amizade.  Se há alguma pessoa em algum desses grupos com a qual se concorde em tudo, essa é sua alma gêmea e você é uma pessoa privilegiada. Nenhuma discordância mesmo? Nunca? Nem uma única vez?

Tão intensas estão se tornando que não há mais limites. Pessoas de todas as idades agridem, torturam ou até matam por motivos fúteis nos casos mais graves, mas há aqueles que excluem do seu círculo de amizades todos aqueles que não têm a mesma opinião sobre política, casamento, opção sexual ou religiosa, entre tantas outras.   Essa intensidade perceptiva não respeita a opinião do outro. Não há tolerância, só intensidade.

Há quem termine uma amizade de anos porque a amiga chegou com o cãozinho, seu filho amado, recém-adotado, que se refestelou no sofá novo. Uma não gostou de ver seu sofá sofrer os efeitos dos dentes no tecido, outra se melindrou porque o “filho” foi colocado no colo da “mãe” com o pedido para que ali permanecesse até o final de visita, que foi breve e a última, depois de décadas de amizade.

Fim do relacionamento. Entre amigos, entre casais, entre colegas.  Tal intensidade levará cada vez mais pessoas por uma estrada solitária. Nos casos mais graves, desafetos não são mais ignorados, mas trucidados, física ou moralmente.  As redes sociais estão repletas de pessoas que postam suas opiniões – únicas e verdadeiras – através de palavras ferinas, causando todo tipo de dor e muitas vezes se juntam àquelas cujas consequências redundam em violência física nas manchetes dos jornais.

Amigos precisam torcer pelo mesmo time, votar no mesmo partido e amar sushi, ou não serão mais amigos. Entre a intensidade do pensamento em relação ao ter sempre razão e o respeito à opinião do outro há uma linha que deve ser respeitada. Esse limite ou a ausência dele é que contribuiu para que tantas crianças, adolescentes e adultos não consigam perceber que não precisam pensar igual, que podem externar sua opinião sem aniquilar o oponente. Discordar pode ser salutar, pois as diferenças permitem somar novos pontos de vista,  promover o discernimento.  Respeitar as diferenças não reflete fraqueza. Pensar intensamente sobre a tolerância é mais importante que ser intensamente emocional.