Bücherverbrennung! Esse “palavrão” significa queima de livros. As imagens das fogueiras que os utilizavam como combustível nos leva ao período da Segunda Guerra Mundial, seja pelos inúmeros filmes que retratam o período, seja por junção de letras que se transformam em textos.
Transformados em eventos públicos, organizados por associações de estudantes alemães, foram queimados cerca de 20.000 livros. Thomas Mann, Nobel de Literatura em 1929, reconheceu o perigo ao ver seus livros queimados em praça pública e tornou-se um emigrante sem nacionalidade, antes mesmo do início da guerra.
Apesar dos livros queimados, as ideais sobreviveram, pois elas só desaparecem quando devidamente contestadas através de boa argumentação.
O fogo, bem antes, já fora utilizado para queimar aqueles que porventura fossem acusados de praticar atos de bruxaria. Purificar ou eliminar ideias?
A utilização do fogo para “eliminar” o material elaborado para o ensino médio politécnico pode ter várias representações. Aqueles que determinaram a incineração queriam eliminar o que consideraram nocivo? Ou queriam demonstrar contrariedade com a imposição de ideais divergentes? A alegação, nesse casso, é de que não houve queima de livros, mas de uma proposta do governo. Um ato simbólico para manifestar descontentamento.
Descontentamento esse que promove a demência da docência, já que há décadas os docentes travam uma luta sem tréguas pela valorização do magistério. Na mesma data em que Jornal Zero Hora (20/12/11 p.6) publicava reportagem sobre o Concurso para o magistério estadual, se lia na p.47 – que há 30 anos, o governo pretendia conceder aumento, por decreto, ao magistério, como solução provisória.
Propostas governamentais, normatizações, memorandos, resoluções, ou seja lá que nome é dado aos inúmeros documentos enviados a cada ano para as escolas “adequarem” aos currículos ou a carga horária dos professores não são novidade. Quando um novo governo assume, a frequência desses “enviados” aumenta, como se os novos integrantes do governo tivessem a fórmula mágica, grande transformadora da miserabilidade educacional vigente, que nos coloca em 88º lugar no ranking de educação da Unesco.
Mudanças são necessárias para qualificar a educação. “Para que” já se sabe, o grande problema é como fazer. A inserção de temas e disciplinas criou um inchaço difícil de gerenciar. Trabalhar por área de conhecimento é um bom caminho, mas na atual estrutura é impossível. Não há professores com qualificação generalista para atender toda uma área, como por exemplo, das Humanas, que engloba História, Geografia, Sociologia e Filosofia. Troca-se seis por meia dúzia, ou seja, cada docente irá ministrar a disciplina de sua formação. Para dar certo, todos teriam que trabalhar apenas em uma escola para planejar em conjunto. Assim como teria que ser realizada uma mudança nos próprios cursos de licenciatura, que, salvo exceções, não dialogam entre si. Da mesma forma, propor uma parte “prática” sem definir como será feita a supervisão da mesma, não trará acréscimo de qualidade. Como fazer é a grande questão.
Qualificar a educação não será tarefa fácil, mas será irrealizável se não houver diálogo entre os governos e os educadores. As escolas não são e nem podem se tornar homogêneas, pois aí não caberia a diversidade e a inclusão. A homeostasia é a palavra chave, presente na ideia de gestão democrática prevista no PPP – Projeto Político-Pedagógico . O Brasil precisa de políticas públicas para a educação e não políticas partidárias que muitas vezes acabam trocando seis por meia dúzia. Criar projetos sem testar a eficácia e eficiência resulta em desperdício de dinheiro público. Qualquer empresa sabe disso.
A prática não pode ser desconectada da teoria, que muitas vezes é um excelente embasamento, mas distante da realidade da sala de aula. Professores recém formados muitas vezes são vítimas dessa armadilha, logo se decepcionam por não encontrar o ambiente propício para aplicar seus conhecimentos e então surge a decepção e a desistência. E, sem professores, não há solução.
